Ficamos com medo de sair de casa.
Ficamos mais à vontade aí dentro com nossas famílias, nosso conforto, nossa segurança. Temos a certeza de que aí nunca seremos atacados por feras selvagens, plantas carnívoras, seres humanos selvagens e carnívoros.
Lá fora, eles estão à vontade. Muriçocas fazendo pose de machões.
- Ei, chapa, me dá cinqüenta centavos.
Não pedem, exigem. Eles estão no comando, estão em seu habitat. Temem os sapos mais gordos, que não se importam com as oferendas que eles o fazem. Os mais magros e a espécie, antes tão rara e agora tão comum, sugadora de sangue são seus amigos. O primeiros se deliciam com as pedras que lhe oferecem, são submetidos aos mandos de insetos, não reclamam: deve parecer um banquete. Os últimos enfiam a língua fundo até o esôfago do mosquito e sugam lhe alguns restos de alimento, têm um pacto, são camaradas, são amantes pervertidos.
- Me dá cinqüenta centavos, aí.
Mentimos, claro. O sangue é nosso, é sangue suado. Alguns acham que uma picadinha não dói, mas é uma bala de canhão afilada.
- Então me dá teu dinheiro todo.
É a dor da impotência! Somos a caça! Os braços estão amarrados, debatemo-nos no chão: agora o mosquito pode nos pisotear, nos esmagar. Ele ri baixinho, dentro de si, camufladamente. Várias caças passam por eles e não se pode assustá-las para a carne não perder a fragilidade.
- Isso aí é um celular?
Fomos extorquidos, cambaleamos. Restava apenas a dúvida: orelha ou tudo? Fora-se o ouvido tão útil. O egoísta agora tem três ou mais.
- Valeu, cara.
Somos seus camaradas, agora, compramo-lhe a simpatia. Não há sapos. Só há predadores e presas. Há o vazio, há a fraqueza, há a vontade louca, o "wollen" de virar um sapo troncudo, o Sapão, pular nas costas do infeliz e arranca-lhe as mãos à mando de Hamurábi. O mosquito se foi.
Voltamos para casa. Estamos seguros, com a família, com o conforto, ainda bem. Os sapos são alertados, alguns dão um pulo lá, outro esperam pela ceia. Ligamos a televisão, deprimidos.
Agora, temos medo de ficar em casa.
sábado, 16 de fevereiro de 2008
Patrimônio violado
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Victor Gomes
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12:25
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Categoria(s): Dia-a-dia
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Caçando idéias
A noite está fria, embora meu quarto esteja um forno, e meus braços suam e deixam a escrivaninha umedecida. Odeio isso com todas as minhas forças. Não estou no computador, as idéias têm especial aversão a este prático engenho, teriam ciúmes se lessem o penúltimo adjetivo... Preciso me reconciliar com elas por uma briga da qual não lembro, mas em que tive participação, pois elas fugiram de novo.
Cansei disso: de agora em diante, armarei arapucas para as desertoras.
A janela parece uma boa isca, levanto e vou até lá. Um mosquito me perturba há dez minutos. Quero esmagá-lo prazerosamente e rir de seus restos torcidos numa pocinha de sangue próprio ou alheio, de quem ele pegou por último.
Depois das cortinas, do vidro, mas não das grades, o rosto sente a diferença climática do tropical equatorial "saunal" para o friozinho bom. É meu momento de fuxico. Não que eu goste disso, nem que seja o melhor atrativo a boas idéias, mas o meu ocasional ócio mental me induz a fazer coisas ilegais ao meu "eu", como essas. Alguém sai de carro e um som altíssimo informa que o automóvel não está longe. Mentira, ele está, acabei de ver. Mal-educado, infeliz, egoísta, peste. Que o pneu fure e a gasolina acabe. Isso poderia acabar com a noite de sono de alguém, uma pobre vítima da insônia. Meus pêsames, sono merecido.
Um homem saltita! Trinta anos, expressão séria, ombros encolhidos e passadas preguiçosas, mas ele saltitou! Tudo isso para pular um desnível da calçada. Liberou por um momento algo que escondia. O quê? Não sei, apenas vi, prefiro nem opinar. Ele devia achar que ninguém espiaria pela janela às onze horas da noite.
Coisa feia... Tento atrair as idéias fazendo fofocas? Não, não queria isso. Queria falar sobre o céu roxo e laranja. Sim, roxo e laranja. O homem consegue mudar até a cor do céu noturno, enfeita-o para o Halloween.
(Termo clichê esse "o homem". Usarei algo melhor nos próximos escritos...)
Mas não tenho inspiração pra falar do céu e de suas nuvens.
Acaba de chegar um outro carro, sai uma família tradicional dele: pai, mãe, filho, filha e cachorro. Sim, tem até o cachorro. O menino corre contente com o animal para casa, mas a menina queria voltar ao passeio e chora alto, altíssimo. Passados três minutos de lágrimas e berros, três cabeças procuram o foco do barulho infernal da janela de suas casas. A menina continua chorando. Um certo amigo diria que ela tem futuro como estrela do rock, mas os vizinhos suplicam por um tampão. A mãe usa uma boneca de sorriso duro para anestesiá-la, e funciona. O volume diminui e eles entram em casa.
Ops. Uma mulher me vê escrevendo na janela e fecha as cortinas. Nem olhei para ela! Para evitar ser flagrado novamente, guardo a arapuca quase vazia. Peguei apenas pardais...
Deito satisfeito: capturei algumas idéias e adivinhem quem está grudado na minha mão... Estraçalhei o mosquito!!!
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Victor Gomes
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12:24
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Categoria(s): Dia-a-dia
domingo, 10 de fevereiro de 2008
Encontro
Era a solidão e uma grande quantia de timidez figuradas em um só homem. Trinta e dois anos, divorciado, sem filhos e, como exclusiva companhia em sua casa, nosso herói tinha: a internet. Nada mais.
O maduro ser sucumbia nas salas de bate-papo à procura do solene amor. Era esse o derradeiro recurso de uma pessoa extremamente tímida que conseguia se expressar, apenas, em frente a um monitor. Salvo temporariamente da sua timidez ele até conseguia conversar com um número vultoso de pessoas. Ainda assim, ninguém interessante. Nenhum de seus relacionamentos virtuais vingava, até aquele dia.
Uma mulher com uma conversa inteligente e bastante interessante finalmente entrou em contato. Ela afirmava ter visto o perfil dele no orkut e apreciado muito. Achava-o atraente em todos os sentidos. Animado, o esperançoso foi conferir a página da moça também, que tinha tudo com que ele sempre sonhou, havia se depararado com a tão idealizada alma gêmea, encontrando-se até as mesmas veleidades. O único problema era a falta de uma foto no perfil dela. Daí a dúvida: Como fariam para se encontrar? A sua “paquera” descreveu-se morena, corpo escultural, rosto repleto de serenidade e beleza, usaria um “tomara-que-caia” branco e calças jeans. Estaria esperando-o em um banco em frente ao cinema. Superando todos os medos e acanhamentos o auspicioso aceitou prontamente e viu naquele encontro seu renascimento. Era a vida fluindo em seu corpo com intensidade mais uma vez.
Na data, hora e local combinado veio o impacto, a decepção. Ele não havia se aproximado muito, de uma distância segura pôde ver. No banco escolhido para o encontro, estava uma morena. Entretanto nada escultural: era obesa! Seu rosto parecia estar ao avesso e voltado direto e constantemente para o sol devido à deformidade de sua face feia. Usava um “tomara-que-não-caia-jamais-nem-por-acidente-ou-vontade-própria” branco e um jeans prestes a explodir que devia ter brotado ali, pois o decepcionado não imaginava como aquilo havia sido vestido.
Derrotado pela maldita mentira que se fazia presente, nosso herói foi embora, voltou para a já conhecida e odiada solidão. Jamais deveria confiar em conversa via web, passaria a ser como Tomé.
Dez minutos atrasada, uma morena dotada de um corpo atrevidamente perfeito e um rosto angelical sentou-se ao lado de uma figura adiposa com vestes toscamente semelhantes às suas e passou a esperar alguém que não viria jamais.
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Mikhaell De Alencar
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03:22
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Categoria(s): Dia-a-dia
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Açúcares
Cada um com o seu açúcar.
É uma coisa bem pessoal, personalíssima. Uns gostam de quantias módicas, outros de abundâncias assustadoras. Os que preferem o refinado, tradicional e suficiente, estranham quem ama o mascavo, casto e nutritivo.
O que seria do suco amargo de se estalar a língua? Sua melancólica solidão. Seria derramado instintivamente, recusado com polidez ou pingado furtivamente no jarro da planta ornamental? É o lápis sem a borracha, a fome sem a boca, a comédia sem a risada, o tormento sem o pranto! O acre é cabeça-dura sem perceber e o bom açúcar é o eloqüente de fala simples, leve, mas requintada, humildemente requintada.
Para cada gota amarga, traga-me um torrão. Não, exagero. Basta um pouquinho, aquele restinho que se equilibra na colher, mergulha no copo, some e faz valer o gole. A sede sempre morre, mas do que se lembra? A lembrança pode ser doce, tem que ser doce. Quem assim não o quer?
Entretanto, atenção: açúcar engorda.
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Victor Gomes
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11:53
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Categoria(s): Devaneios
Alguns versinhos...
Rainha romana, vadia dominadora
Bundas banalmente balouçam
Idéias escoriadas
São mesmo idéias?!
É... Desisto... Versinhos nunca mais... -.-'
E ainda fiz de alguma coisa que odeio!!!
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Victor Gomes
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11:18
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Categoria(s): Rascunhos
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Envoltas por nada
Tinham discutido feio. Ambas ficaram chateadas e há uma semana não conversavam. O pior era não poder falar com os outros: uma escutaria o que a outra diria. Inconfortavelmente próximas. Ficaram mudas. Indiferentes, realizavam o mesmo movimento de sempre sem queixas e sem tontura.
Até que uma esqueceu a razão da briga.
- Lu...
- O que é?
- Eu não queria que ficasse... Sabe... Esse clima chato entre a gente... Faz tanto tempo que vivemos em companhia da outra e ficamos... Tão... Amigas...
- Nem vem com choro. A culpa é toda tua.
- Mas...
- Mas-mas-mas! Você fica se queixando o tempo todo! O mesmo choro de sempre! É dorzinha ali, dorzinha aqui... Você tem uma cor azul linda e... - arrependida por ter elogiado, esquiva do olhar da outra - Quem é você para reclamar da vida? Olhe para mim! Sou grande, redonda, tristemente cinza e destinada a manter a mesma vida que tenho há milênios! Você já me viu chorar?
- Não é a mesma coisa... Tenho me sentido mal ultimamente... Acho que estou doente.
- Novidade.
- Como?
- Grande novidade! Parece que você nunca sai dessa puberdade doida! Desde quando nasceu tá assim! Agora deu pra fumar. Já disse que faz mal à saúde. Sua pele está ficando horrível: suja e ressecada!
- Eu não fumo e sabe disso! É que nas últimas décadas, aqueles bichinhos que eu tinha se desenvolveram. Coçam e fazem muito barulho! Fazem questão de arrancar cada pedacinho meu, consumi-lo e deixar excrementos para trás... Alguns têm orgulho dos restos... Dói-me quando eles corroem a pleura... Não fumo, mas eles acabam comigo mesma no meu lugar. Acha que gosto disso? E ainda tenho cuidado para que não cheguem até você, amiga... - a voz foi se acabando no final da frase devido a vergonha.
- Queridinha, eles JÁ vieram aqui, não lembra? Inclusive, uma parte deles adooora lembrar disso. Mitos construídos por uma pegada! Francamente... Ainda bem que sou imune a essas coisas! Parece que o Próxima Vítima já manifestou os primeiros sintomas disso aí.
- É, eu sei. Tadinho...
- Mesmo que os bichinhos não cheguem até lá, se continuar nesse ritmo, não agüentará mais cinco bilhões de anos...
- Lu!!
- Ah! Desculpe...
Uma tinha tocado num assunto delicado, a outra ficou atingida pelas afirmações inocentemente grosseiras. Permaneceram em silêncio durante algum tempo. Ao menos recobraram as conversas de sempre.
- Eu sei que é extremamente incoveniente perguntar isso a você...
- Tudo bem, pode falar.
- Bom... Esses bichinhos... Tem como se livrar deles? Quero dizer, eu já nasci imune a eles, mas você já está seriamente comprometida... - a preocupação transbordava em suas últimas palavras.
- Não sei, mas, sabe... Eu não quero me livrar deles...
- O quê?! Você é louca?! Você mesma disse que enquanto seu corpo se acabava, "os pulmões iam na frente". E a sua memória? Você está esquecendo de certas coisas facilmente.
- Mas eles são tão engraçadinhos... São tão vivos... Mais do que nós! Alguns deles são geniais, criam certas coisas que me deixam boquiaberta...
- Eles não "criam", são os excrementos, como você disse.
- Disse?
- Sim. Gostar dessas coisinhas é o mesmo que olhar para o Rei porque ele é bonito: Olhe uma vez para nunca mais!
Um projétil acerta uma delas.
- Ai!!
- Nossa! Lu, tudo bem?
- Não!
- O que foi?!
- Poros! Não agüento mais isso...
- Chata.
Virou-se: lembrara o motivo da briga.
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Victor Gomes
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12:37
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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Ah... carnaval!
Ah, carnaval! Mata, engorda e faz mal. Você ainda tem alguma dúvida?! Liga a televisão! Acabo de testemunhar uma reportagem sobre a morte de duas garotas que foram atropeladas por um trio elétrico. Sim, atropeladas por um trio elétrico. Atropeladas. Por um trio elétrico. Após ler isso colega, você está se sentindo bem? Não é coincidência, eu também não estou.
Depois dessa, nem preciso lembrar dos homicídios nas estradas do Brasil inteiro. Isso mesmo, homicídios culposos que já viraram clássicos de um terror embriagado que está em cartaz todo ano. Está anunciado. Todos sabem que vai acontecer. Mas como eu comentei antes, não é necessário resgatar o tópico, vão falar sobre isso na sua T.V. em breve. Ou será que já estão falando? Dá uma olhada.
Você deve estar se perguntando, “Realmente mata e faz mal... mas engorda?”. Sim. E a maior prova disso é essa cerveja que me encara timidamente, com ares de culpada. “A culpa é sua mesmo!”, eu digo. Jogo a culpa toda nela. Mas ela é muito esperta e me responde categoricamente: “Quando um não quer dois não fazem”.
Mentira.
Sou forçado. Ela me estupra. Possuindo-me enquanto grito por alvedrio.
Mentira de novo. Temos um namorico.
E assim vou engordando e tragando esse tédio grotesco de carnaval. É... Você já deve ter percebido que não sou chegado nessa festa pictoricamente sensível à vermelho sangue. Desde moleque era assim. E desde aquela época me olham como olhariam para um político que tentasse “trabalhar” todos os dias da semana. “Cara, você existe? Esse carnaval vai ficar na História!”. Com certeza. O carnaval é uma tradição que tem seus primórdios marcados na História mundial! Pois é, nesse país tropical abençoado por Deus, o Bolsa Família é a sofisticação do pão romano e o carnaval é nosso circo. Mas vejam só! Superamos Roma humilhantemente: não temos apenas um Coliseu, temos dois! O Marquês de Sapucaí e o Anhembi. Pena que são vulgarmente chamados de Sambódromos. Ah! Quase esqueço. As feras estão menos espertas, entretanto continuam desfilando com uma ferocidade nua. E claro que, literalmente, as bestas continuam nuas em público, natural, como qualquer animal que não tem a capacidade de refletir sobre o próprio raciocínio.
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Mikhaell De Alencar
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17:49
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Categoria(s): Dia-a-dia
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
Cadê?
Minha voz esgota minha escrita. Descobri essa maldição ontem. Eu falei com os meus amigos: "Amanhã eu vou postar duas crônicas: uma comparando animais e seres humanos e outra sobre a cartomante Mãe Mimdá Thel Dindin". Toquei no teclado e todas as palavras correram. "Ele acreditou que ia conseguir. Hahá".
¬¬
Será que foi praga da Mimdá, Sarah, Salomé, Tetê de Iansã ou similares? Será que agora estou sendo atacado por uma consciência animalesca que me priva de minhas idéias? MINHAS idéias! Maldito seja-lá-o-que-ou-quem que me fez perder as minhas musas. Cadê elas? Voltaram correndo nuas ao Parnaso antes da hora? Malditas! Ops, perdão! Que voltem aos montes!
Pois é, leitor. Fico por aqui. Sem idéias, sem palavras, arrependido de ter comentado antes e possivelmente amaldiçoado.
Inté.
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Victor Gomes
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10:00
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Categoria(s): Rascunhos