Tinham discutido feio. Ambas ficaram chateadas e há uma semana não conversavam. O pior era não poder falar com os outros: uma escutaria o que a outra diria. Inconfortavelmente próximas. Ficaram mudas. Indiferentes, realizavam o mesmo movimento de sempre sem queixas e sem tontura.
Até que uma esqueceu a razão da briga.
- Lu...
- O que é?
- Eu não queria que ficasse... Sabe... Esse clima chato entre a gente... Faz tanto tempo que vivemos em companhia da outra e ficamos... Tão... Amigas...
- Nem vem com choro. A culpa é toda tua.
- Mas...
- Mas-mas-mas! Você fica se queixando o tempo todo! O mesmo choro de sempre! É dorzinha ali, dorzinha aqui... Você tem uma cor azul linda e... - arrependida por ter elogiado, esquiva do olhar da outra - Quem é você para reclamar da vida? Olhe para mim! Sou grande, redonda, tristemente cinza e destinada a manter a mesma vida que tenho há milênios! Você já me viu chorar?
- Não é a mesma coisa... Tenho me sentido mal ultimamente... Acho que estou doente.
- Novidade.
- Como?
- Grande novidade! Parece que você nunca sai dessa puberdade doida! Desde quando nasceu tá assim! Agora deu pra fumar. Já disse que faz mal à saúde. Sua pele está ficando horrível: suja e ressecada!
- Eu não fumo e sabe disso! É que nas últimas décadas, aqueles bichinhos que eu tinha se desenvolveram. Coçam e fazem muito barulho! Fazem questão de arrancar cada pedacinho meu, consumi-lo e deixar excrementos para trás... Alguns têm orgulho dos restos... Dói-me quando eles corroem a pleura... Não fumo, mas eles acabam comigo mesma no meu lugar. Acha que gosto disso? E ainda tenho cuidado para que não cheguem até você, amiga... - a voz foi se acabando no final da frase devido a vergonha.
- Queridinha, eles JÁ vieram aqui, não lembra? Inclusive, uma parte deles adooora lembrar disso. Mitos construídos por uma pegada! Francamente... Ainda bem que sou imune a essas coisas! Parece que o Próxima Vítima já manifestou os primeiros sintomas disso aí.
- É, eu sei. Tadinho...
- Mesmo que os bichinhos não cheguem até lá, se continuar nesse ritmo, não agüentará mais cinco bilhões de anos...
- Lu!!
- Ah! Desculpe...
Uma tinha tocado num assunto delicado, a outra ficou atingida pelas afirmações inocentemente grosseiras. Permaneceram em silêncio durante algum tempo. Ao menos recobraram as conversas de sempre.
- Eu sei que é extremamente incoveniente perguntar isso a você...
- Tudo bem, pode falar.
- Bom... Esses bichinhos... Tem como se livrar deles? Quero dizer, eu já nasci imune a eles, mas você já está seriamente comprometida... - a preocupação transbordava em suas últimas palavras.
- Não sei, mas, sabe... Eu não quero me livrar deles...
- O quê?! Você é louca?! Você mesma disse que enquanto seu corpo se acabava, "os pulmões iam na frente". E a sua memória? Você está esquecendo de certas coisas facilmente.
- Mas eles são tão engraçadinhos... São tão vivos... Mais do que nós! Alguns deles são geniais, criam certas coisas que me deixam boquiaberta...
- Eles não "criam", são os excrementos, como você disse.
- Disse?
- Sim. Gostar dessas coisinhas é o mesmo que olhar para o Rei porque ele é bonito: Olhe uma vez para nunca mais!
Um projétil acerta uma delas.
- Ai!!
- Nossa! Lu, tudo bem?
- Não!
- O que foi?!
- Poros! Não agüento mais isso...
- Chata.
Virou-se: lembrara o motivo da briga.
-
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