O homem saiu pela porta traseira de um prédio decrépito. Apenas as janelas e portas, para ocultar o que havia dentro, eram preservadas com cuidado. Lá, ninguém sabia o que acontecia, mas se sabia nas ruas que lá fazia-se acontecer.
Enxugou a testa com um pequeno lenço, dos que se usa para exibir o luxo. Que luxo? Onde estava o seu luxo naquele momento? Afinal, ele estava num beco escuro em negra madrugada, acompanhado apenas de gatos, ratos e toda uma tímida fauna que se acumulava em torno das latas de lixo. Ela foi esquecida, ou deixada de lado por alguns instantes.
O pior é que estava quente, muito quente. Usava roupa, muita roupa, roupa demais. Queria arrancar cada peça e tomar um banho frio e demorado, mas estava naquele breu, horrível breu. Limpou a testa, o pescoço, a nuca... Não adiantava, pois seus poros não paravam de vazar de calor. E de medo. Medo de ser descoberto, de ser morto.
Um pingo de suor caiu na maleta escura e ele a enxugou na calça. Já havia descido os breves degraus da saída, mas era-lhe dfícil avançar com aquele peso que carregava não nos ombros, mas na mente, na alma.
Não precisava daquilo, bastava-lhe lutar. Mas era um covarde. Um asqueroso covarde ardendo em chamas negras que não feriam, mas traziam muito calor, vindas diretamente do inferno, com o Satanás lhe acenando.
"Venha."
Não. Não iria para o inferno. Nem acreditava que existia. Mas como podia, naqueles instante, achar tão óbvia sua existência? Tirou o chapéu e se abanou com ele.
O que era aquele vulto? Saiu rapidamente detrás do muro numa mitose negra, como se fossem uma única substância. Era o diabo. O diabo o levaria sorrindo. Sorriso negro, pois não se via, mas se sentia.
Correu para o lado oposto e a maleta foi ao chão. Que a pegassem, mas não o pegassem. O inútil esforço durou três largas passadas, quando ouviu um estouro e sentiu a dor no peito. O projétil em mira perfeita calou o compasso nervoso.
Foi quando sentiu tudo frio. Um frio confortável e adequado. Esperava por aquilo, fosse fruto de sua covardia ou de seu desejo por um banho gelado. Soprava a brisa fria. Não iria para o inferno, não era frio lá. Então veio-lhe um sussurro... Uma voz... Não, uma risada.
Risada macabra, distante e receptiva...
"Venha."
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