terça-feira, 29 de janeiro de 2008

"Eu podia estar roubando, eu podia estar matando..."

O menino entrou no ônibus pela porta de embarque. Era moreno, baixo e tinha cabelos ralos e olhos chorosos que tentava ocultar. Cabisbaixo, fez sua oferta de chocolates com recheio de laranja e, como não tinha dinheiro para passar pela catraca, teve de forçar os pulmões para que todos os passageiros o entendessem. Sua voz estava firme no começo, ficou falha, fraca e, por fim, quando os tormentos acumulados do dia perturbaram inteiramente suas palavras, estas saíram tristes, implorantes, desesperadas. Agora não era mais um vendedor, era um pedinte.

- Compra aí, moça.

Os distraídos que viam coisas correndo através da janela não o escutaram, o motorista sequer moveu as sombrancelhas, o trocador estava sonolento e quem ouvira cada frase dita pelo menino não comprou. Destes últimos, alguns o acharam impertinente, outros não gostavam do produto, já outros achavam que não se resolveria o problema dele dando-lhe dez centavos por doce, mas sim "educação, lazer, moradia e saúde", o velho lema. O menino procurava pessoas que ficassem tocadas pelo seu apelo sincero, mas lá não haviam caridosos.

- Compra aí, cara...

Seu último pedido morreu num choro não contido. Sentou nos degraus da porta e pôs a caixinha de chocolates ao lado. Enxugou as lágrimas na manga da camisa com propaganda política e a usou para esconder o rosto antes de chorar mais alto. Não parecia que queria chamar atenção. Queria jogar fora aquele dia e começar outro do zero, assim poderia vender logo os doces. Era a fome, torturadora implacável.

Agora não haviam mais distraídos, acostumados ou sonolentos. Aumentou o número de pessoas que o achavam impertinente, nenhuma veio para acudi-lo. Estava sozinho. Tristemente, assustadoramente, profundamente só. Lágrimas dificilmente lavam convicções. Nenhum dos passageiros se moveu para lhe dar uma moeda, uma palavra de consolo, uma ajuda para se levantar, e aqueles que pensavam no velho lema não moveriam um dedo sequer para mudar a situação depois de saírem do ônibus.

O dedo cidadão é motivo de piada: votam os descuidados, manipulados, aliciados, enganados e até os engraçadinhos! Votar é engraçado! Palhaçadas do dia-a-dia, programas de comédia e humoristas são coisas do passado! Agora o que vale é votar para ver a esculhambação que dará! Você não acha? Enquanto isso penam os bons princípios... Pena o menino em meio a uma frenesi dançante e ele ainda tem de vender seus chocolates de laranja a dez centavos cada!

Ele não percebeu por quanto tempo chorou. As lágrimas que o ajudaram a se livrar do peso de um dia de miséria foram traiçoeiras: perdera sua parada com a visão embaçada.

- P-ára...

Ninguém ouviu. Gritou com a voz trêmula.

- Pára!

O menino queria descer, estava com medo de voltar para casa. Era como se implorasse pelo único bem possuído.

- Pára, motorista, por favor! Pára!

O choro foi gutural dessa vez e ele batia na porta. Não conseguiu falar mais nada: as palavras escorregavam e só eram produzidos sons falhos, incompreensíveis.

O ônibus parou e o motorista observou o garoto pelo retrovisor, não mudara a expressão. O menino pegou a caixinha ainda cheia de guloseimas desceu correndo.

Logo o choro se perdeu no ruído ensurdecedor do motor e do trânsito. Uma pessoa desceu. O cobrador coçou o nariz.

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